Capitalismo, Populismo e Democracia: o problema do populismo italiano e a União Europeia

por Mauro Cazzaniga

Nesta terça feira, dia 05/06, Giuseppe Conte, o novo premiê italiano, deu seu discurso inaugural para o Parlamento. Entre algumas das propostas apresentadas estavam o apoio a uma aproximação com a Rússia, a criação de um sistema de renda básica e a rejeição de um modelo de austeridade para as contas públicas italianas.

Conte, assim como outros integrantes de seu gabinete, praticamente não possui experiência ou carreira política. Sua indicação foi resultado de um conturbado processo eleitoral, em que o Movimento 5 Stelle (M5S), partido anti-establishment fundado pelo humorista Beppe Grillo e que defende um tipo de democracia direta virtual, foi o grande vencedor, saindo a frente dos mais tradicionais Partito Democratico (PD) e Forza Italia (de Silvio Berlusconi). Não tendo sucesso em formar coalizão com o PD, o M5S se juntou ao terceiro colocado nas eleições: a Lega Nord, partido de extrema-direita a favor de maior autonomia regional ao norte da Itália e de políticas anti-migração. Após a indicação do gabinete ter sido vetada pelo presidente italiano Sergio Mattarella (devido à presença de Paolo Savona, economista anti-Euro), um novo gabinete com um economista mais amigável ao Euro foi aprovado no dia 31/05.

Apesar de parecer estranha a união de dois partidos com ideologias opostas, os elementos que têm em comum são mais fortes do que os divergentes: o euroceticismo, o apoio à Rússia, oposição a políticas de austeridade, a afirmação de uma política “Italy First” (ecoando o “America First” de Trump), e, claro, a principal acusação contra os dois: o populismo. Conte, em seu discurso, declarou que, de fato, era populista, se populismo significa que os governantes devem ouvir a vontade do povo. A presença de um governo eurocético (e, principalmente, a rejeição à austeridade) preocupam outros líderes da União Europeia. Quais foram os fatores que produziram a situação atual na Itália e quais são as consequências que o novo governo pode trazer à UE? Continuar lendo “Capitalismo, Populismo e Democracia: o problema do populismo italiano e a União Europeia”

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Meghan e Harry: o papel da família real no soft power britânico

por Kamila de Sousa Aben Athar Alencar

No último sábado, dia 19, o mundo testemunhou a união do Príncipe Harry e da atriz americana Meghan Markle em cerimônia de casamento realizada na Capela do Castelo de Windsor, na Inglaterra. A ampla cobertura do evento não ocorreu apenas na mídia britânica, mas também em outros países. No Brasil, a detentora dos direitos de transmissão foi a Rede Globo e, segundo dados do Ibope (EMISSORAS, 2018), a emissora apresentou aumento de 73% em sua audiência durante a cobertura do evento. Entretanto, para além do poder da mídia e do interesse das pessoas em assistir ao casamento real, a união de Meghan e Harry pode representar mais do que romantismo, e sim, uma peça chave de soft power britânico em uma fase conturbada pós-Brexit.

Atualmente, os britânicos passam por uma crise de identidade após a saída do país da União Europeia. De acordo com Oliver (2017), os britânicos, assim como qualquer outra sociedade, se imaginam como sendo algo e afirmam para si próprios que eles são representados por certas características que os distinguem dos demais. Isso acaba por resultar em duas fontes de crise em sua identidade: (i) tensão entre o que eles imaginam ser e o que eles realmente são; e (ii) tensão entre o que os britânicos consideram parte da identidade britânica e o que os outros povos consideram como sendo britânico. O Brexit teria sido o estopim de ambas as tensões, pois o Reino Unido agora se questiona o quão distante está a sua identidade da realidade, bem como a indagação acerca do que constitui essa identidade, ao passo que o mundo também observa essa crise identitária e tira suas próprias conclusões sobre ela (OLIVER, 2017). Continuar lendo “Meghan e Harry: o papel da família real no soft power britânico”

Entre o acordo e a ogiva: a (in)compatibilidade entre Irã, Coreia do Norte e EUA

por Gustavo Partel Balduino Oliveira

Na última terça-feira, 9 de maio, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou seu país do Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), o acordo que buscava limitar o desenvolvimento de um programa nuclear com fins militares no Irã em troca da redução de sanções econômicas ao país do Oriente Médio. A medida gerou repercussões imediatas na mídia e nos parceiros europeus dos EUA, que se mostraram favoráveis à continuidade do acordo. A ação ocorre enquanto os EUA caminham para outro diálogo nuclear relevante, com o líder norte-coreano Kim Jong-Un. Coreia do Norte e Irã – ambos colocados no “eixo do mal” de George W. Bush – parecem ter o futuro de suas políticas nucleares associado pela política externa impetuosa de Donald Trump.

A saída do acordo com o Irã é vista como estratégia americana de contenção da atuação regional do país islâmico, que constantemente ocupa a posição de adversário de Israel e Arábia Saudita, ambos aliados relevantes dos EUA na região (BABO, 2018). A decisão final norte-americana levou em conta relatório produzido em Israel, que alega a continuidade de programa nuclear ofensivo no Irã, em desrespeito ao acordo (AHRENS, 2018).

A volta das sanções econômicas representaria uma forma de intervenção direta no poder econômico e por consequência político da República Islâmica. Substitui o controle direto dos EUA sobre a produção nuclear militar do país, como é o objetivo do JCPOA, por uma tentativa de minar as bases de recursos necessários para tal desenvolvimento bélico. Alemanha, Reino Unido e França, partes europeias do tratado, passam a lidar com o desafio de passar pelas sanções e manter o Irã interessado no acordo (HEIN, 2018). Continuar lendo “Entre o acordo e a ogiva: a (in)compatibilidade entre Irã, Coreia do Norte e EUA”

XXV Boletim de Conjuntura

O PET-REL torna público seu XXV Boletim de Conjuntura.
Confira aqui!
Nessa edição, foram abordados os seguintes temas:
– Geopolítica e informação: uma alternativa?
  • Sputnik Brasil e a opinião pública: a narrativa russa do caso Skripal (por Lucas Freschi Sato)
  • Geopolítica visceral: a ampliação do conceito de poder e a manipulação de opinião a nível individual (por Daniel Cunha Rego)
  • Por onde o eco ecoa mais: o poder da mídia e das redes sociais na promoção de candidaturas (por Luiane Magalhães Dias)
  • Um questionamento ao uso das categorias de “notícias falsas” e “pós-verdade” (por Gabriel de Azevedo Soyer)
  • A mentira na política: é o Direito Penal uma solução? (por Igor Magri de Queiroz)
  • Síria de quem? Sobre intervenções e sujeitos de discurso (por Tiago Marques Rubo)
  • Ética e controle na era das redes sociais: desafios e intervenção (por Gustavo Partel Balduino Oliveira)
  • A África na agenda política internacional à era digital:  Cambridge Analytica e as eleições da Nigéria e do Quênia (por Letícia Barbosa Plaza)
– Emergência da Juventude nos Movimentos Sociais
  • Novas articulações da juventude: em favor de novas mudanças sociais (por Aisha Sayuri Agata da Rocha)
  • A contrarrevolução da “ideologia de gênero” como um fenômeno político transnacional (por Pedro de Souza Ferreira)
Convidamos todas à leitura de nossas análises.
Aproveite!

Imigrantes africanos em Israel: processos transnacionais que ultrapassam os limites da soberania

por Letícia Barbosa Plaza

Ao longo dos últimos anos, a comunidade internacional tem presenciado as dificuldades demonstradas pelo Estado israelense no que diz respeito à formulação de políticas envolvendo imigrantes, requerentes de asilo e refugiados não-judeus, em especial aqueles provenientes de países africanos. Desde seu nascimento como Estado em 1948, Israel usa suas políticas de migração com o intuito de manter seu status de “maioria judaica”. É justamente neste ponto que resta a origem das problemáticas atuais: o objetivo de manter a população majoritariamente judaica, de um lado, justaposto às obrigações legais internacionais tomadas por Israel como signatário da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951), de outro (YARON et al, 2013). Continuar lendo “Imigrantes africanos em Israel: processos transnacionais que ultrapassam os limites da soberania”

A Cúpula entre Estados Unidos e Coreia do Norte

por Igor Magri de Queiroz

No dia 20 de março de 2018, o governo da Coreia do Sul, no uso de seu soft power, anunciou o envio de mais de 160 artistas sul-coreanos, incluindo a cantora Seohyun do grupo Girls’ Generation, bem como o grupo Red Velvet, ambos grupos de K-Pop (pop coreano) famosos tanto no país como internacionalmente, para participarem de dois shows que ocorrerão entre os dias 31 de março e 3 de abril em Pyongyang, capital norte-coreana (JI, 2018; PARDO, 2018). Essa ação é parte da estratégia sul-coreana de preparação para as negociações, por via de trocas culturais, que virão com a cúpula entre os líderes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Coreia do Norte, Kim Jong-un, para tratar de questões relacionadas ao conflito existente na península coreana. Esse é um fato histórico, já que seria a primeira vez que um presidente estadunidense em exercício se encontraria com o chefe do Estado norte-coreano.

Tal cúpula é fruto das mudanças recentes nas configurações das relações políticas da Península Coreana. Se os anos de 2016 e 2017 foram aqueles em que as preocupações e as tensões – bem como as apostas para uma possível guerra – estavam em alta, o ano de 2018 começou com boas perspectivas, contemplando cenários de mudanças positivas. Continuar lendo “A Cúpula entre Estados Unidos e Coreia do Norte”

Os ataques em Ouagadougou e a presença francesa na região do Sahel

por Pedro de Souza Ferreira

No dia 2 de março, em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, a embaixada da França e o quartel general burquinabê foram alvos de ataques conduzidos pelo Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (GSIM), que afirma ter agido em resposta às incursões francesas no norte do Mali duas semanas antes do episódio. Os alvos, de grande carga simbólica, representam uma reação à presença francesa na região e à articulação, sob supervisão de Emmanuel Macron, do G5 do Sahel (Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger), uma cooperação militar para contenção do avanço de facções armadas na região. Os ataques, contudo, revelam a manutenção de relações neocoloniais que são legitimadas, segundo Susanne Wing [1], pela categorização de grupos radicais e separatistas, inspirados muito mais por insatisfações políticas e socioeconômicas, como “organizações terroristas”. Continuar lendo “Os ataques em Ouagadougou e a presença francesa na região do Sahel”